quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Amanhã eu vivo

Hoje eu trabalho, hoje eu estudo,
hoje eu mudo o mundo.

Hoje eu não vivo, hoje eu não durmo,
hoje eu fico mudo.

Hoje eu calculo, eu nem respiro,
hoje não pisco um segundo.

Sigo os passos da hipocrisia,
me tranco em mim, recluso.

Ignoro meus sonhos e meus desejos,
hoje eu me finjo de surdo.

Sigo calado, meu choro engulo,
hoje eu rio de tudo.

E quem sabe um dia,
um amanhã qualquer,
será um hoje em que serei feliz.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Um sorriso no pesadelo

Qual seria a graça de estar contigo 
se não fossem os momentos no qual você não está comigo?
Qual seria o intuito de passar pelo dia
se não houvesse o nosso encontro em seu fim?
Qual seria a graça do seu sorriso 
se não a mim fosse direcionado?
Resplandeceria os ambientes, 
mas deixaria em trevas o meu coração.

De que seriam essas noites, em vão,
se não fosse a espera pelo amanhã, 
a busca pelo dia seguinte,
a contagem do tiquetaque 
dos infinitos — porém finitos — segundos,
a esperar o brilhar do seu sorriso novamente.

O que seria do susto ao pensar sobre sua inexistência,
o temor ao imaginar um mundo sem sua presença,
a angústia ao tentar parir um universo 
em que nele não estás contida,
uma fatia do espaço-tempo 
ao qual seu estonteante semblante não pertence.

O que há de errado quando se almeja os pesadelos a ti desejados?
Expostos desta forma talvez não seriam pesadelos enfim,
aparentemente, pois, com ela tudo seria lindo,
A inimaginável bela expressão que só ela possui a capacidade de expressar.

Sim, contigo desejo até pesadelos.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Fundo do poço

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O universo, em seu ouvido sussurra,
algo que não ouço tampouco compreenderia.
O moto-perpétuo retoma o movimento,
as engrenagens a girar,
girando e gerando felicidade
onde felicidade nenhuma há.

O abismo te encara, no fundo dos olhos
sem temor, sem pudor, sem remorso.
É ele quem te puxa desta vez, inabalável para o fim,
e enfim, somos dois,
dois afogandos, em golfadas, tentando a salvação,
borbulhando afoitos a metros da praia.

De que bem nesta vida há,
numa vida exclusiva de martírios?
Que dor escondes no canto, ao sorrir,
que queira tanto dissimular e mentir.
Se dois, carregando o fardo, são mais fortes,
no leito, nada passa de duas mortes.

Somos todos insignificantes no tempo infinito,
Seremos todos esquecidos, um conto, um mito,
um nada sem importância,
somos fruto da ignorância,
mas como fazer se para mim o show há de continuar
e para você é a hora de encerrar?

Eu nego o fim. Nego, nega, nego!
Não o nosso, não impeço ninguém ao arbítrio.
Nego a desistência covarte da luta,
muitos com menos não se esquivam,
nego a refuta, nego sucumbir ao redor,
nego entregar as pontas e desistir do melhor.
Nego a negação.
Mesmo que ainda infeliz,
nego, até a morte.

sábado, 29 de outubro de 2016

O Jardim das Lembranças

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É, amor, veja,
é compreensível, e até plausível
na dor e na tristeza da perda,
que queiramos crer que há algo além do que se vê.

A falta e a ausência eterna apertam por dentro
quando nossa razão demonstra indiscutivelmente o fim
e um conforto de um travesseiro divino
cai muito bem para nos permitir dormir.

É compreensível, diante das adversidades
que os que sofrem creiam em uma justiça final
para justificar seus sofrimentos
e punir quem apaticamente lhes causou mal.

É compreensível que as pessoas vão,
e como sempre ouvi, quando menos esperamos,
Fica o gosto amargo, resta esperança,
mas infelizmente tudo o que sobra é a lembrança.

E cá entre nós, nada há que possamos fazer
o destino de quem vive, afinal, é morrer.
Não cultivemos essa dor profunda que fica
mas as boas memórias, como um jardom a florescer.

domingo, 16 de outubro de 2016

Despedida iminente

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Vivo a vida a digerir problemas
em um apertado canto escuro.
Reprimo a lágrima que escorreria,
assim encruo, a dor aturo.
Uma função a receber tormentos,
um rosto triste a sorrir conjuro.

No fundo vale da animosidade
passeio morto, sem olhar pros lados.
Percebo até da mais tenra idade,
aos velhos moribundos embasbacados,
que por mais que seja minha a verdade,
sempre haverá contestação dos dados.

No sorriso falso do dia a dia acordo,
com ele mesmo vou dormir, sozinho.
Felicidade? nem mais recordo,
nem mesmo quando ainda estava no ninho.
Apontam o dedo de qualquer modo,
minha defesa, um só escaninho.

E é na tristeza mesmo que me despeço,
nessa angústia profunda e deveras eterna.
Por mais que eu lute, e acredite, eu peço,
não há fim à dor, profunda, interna,
pois amigos não cultivei, logo não meço
a dor que escondo nesta capa feliz externa.